Por uma filosofia de botequim

July 8th, 2008

Gosto de filosofia. Dessa, que soltamos no boteco, descompromissadamente e arrematada com um gole de um líquido qualquer. Discutir a angústia em Kierkegaard ou essência versus existência em Sartre. Mas, acima de tudo, sem nenhum tipo de “saber sistemático”, sem nenhum especialista na jogada. Porque daí a liberdade de falar bobagem esmaece, o medo das estultíces aparece e o silêncio dos autodidatas concorre para a manutenção do monólogo (chatérrimo) do “sujeito competente”.

A liberdade e o fato de não levar muito a sério a vida e os problemas dela decorrentes, aliás, devem manter em alta qualquer tipo de sentimento. Sistematizar as coisas e torná-las metódicas retira um pouco do prazer daquilo que cotidianamente fazemos. Ou como explicar meu gosto menor pela filosofia após terem me tornado professor [temporário] dessa disciplina? É essa uma explicação válida? É?

De novo…

July 7th, 2008

Blecaute. Tentei instalar uma nova versão do wordpress e travou tudo, melou geral. Da confusão, o blog ficou meio seqüelado. Os últimos comentários e a página de apresentação do blog e do escrevente foram para o espaço. Graças aos ótimos serviços prestados pelo suporte, estamos - eu e o blog - de pé.

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Fora o eficiente atendimento do pre-lude (melhor custo-benefício em hospedagem tupiniquim), a impressão que tenho é que fui cercado da nata da incompetência nacional nesses últimos dias. É o corretor que não vende nada, é a juíza que pede seis meses para analisar um processo, é o banco que se nega a devolver grana sabidamente roubada, é o cartão da conta corrente cancelado com uma justificativa estúpida (”você usou o cartão em um caixa suspeito de fraude”), é a Caixa Econômica Federal que troca os fornecedores de cartão e atrasa a entrega para todos os correntistas, é a maldita greve dos correios, é a lentidão na aprovação do projeto de dedicação exclusiva na atual instituição e todo o ônus financeiro decorrente dessa morosidade… e mais um milhão de trabalhos e provas para corrigir.

Mas Pollyanna vem me lembrando sempre que poderia ser pior.

Ainda o plágio

June 23rd, 2008

Já expressei aqui minha opinião sobre o plágio. De lá pra cá, não mudei muito. Talvez por isso, dois fatos recentes foram suficientemente relevantes para ocupar minha cabeça com incômodas caraminholas. Segue a descrição dos acontecidos.

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Fato I.

Trabalhei desde 2005 com formação continuada de professores da rede pública. Dentre as atividades desenvolvidas estavam a capacitação de professores e o desenvolvimento de material didático instrucional.

Mudando recentemente de instituição, manti ainda vínculos de amizade com alguns colegas, o que permitia - e permite - troca de favores mútuos.

Numa dessas situações, recebi um pedido, vindo da Colega A, para revisar um módulo didático para um encontro destinado a capacitação de professores de Geografia. No e-mail, a observação:

Como estou no PAR e sempre viajando foi solicitado que (colega B) elaborasse o material da Formação Continuada. Assim, segue anexo o material para que você avalie e dê suas contribuições, até amanhã. Ok?

Pois bem.

Depois do primeiro olhar, fui acometido de uma forte sensação de “Já vi isso antes”. Com a ajuda do todo-poderoso Google, localizei dois textos: um estava no site da UNICAMP, outro, elaborado por professores da PUC-RJ, no site do MEC. Não havia nenhuma referência bibliográfica no texto em minhas mãos, indicando autoria exclusiva da Colega B.

Feita a constatação da descarada compilação, respondi o e-mail alertando para os riscos que esse procedimento ilegal poderia causar a instituição. Sugeri, ainda, dada proximidade do encontro, que o mesmo poderia ser realizado com o material já fornecido pelo MEC, dispensando, nesse caso, a necessidade de elaboração de material próprio. Colega A teve ciência da gravidade e devolveu, para correção, o material para a Colega B, com minhas observações. Uma semana depois, recebo da plagiadora o seguinte e-mail, acompanhado, em anexo, de uma nova versão do material (que, diga-se de passagem, mesmo sendo totalmente reformulado, ainda não se livrou dos mesmos vícios da prmeira versão do módulo):

Colega,

Encaminho em anexo o módulo reformulado.Lembrando que a reformulação aconteceu antes das observaçoes feitas por você, de forma desumana.

Quanto as considerações feitas,foram de total desapreço e desrespeito para com minha pessoa. Saber julgar é muito fácil,dar sugestões inovadoras é que é difícil. É preciso ter competência humana para se expressar. Ah! a sugestão do colega não tem nada de novo e criativo, como mesmo sugeriu as técnicas do prof. Álvaro dos Parâmetros em Ação, ou seja, cópia do material. Seria apropriado e conveniente que se dirigisse diretamente a mim. Que eu saiba nós somos da mesma categoria de profissionais.

Quanto ao material plagiado, não cometeria o erro de mantê-lo sem citar a autoria do mesmo.Quanto aos recortes, podemos observar quantos recortes foram feitos na Proposta Curricular do Ensino Médio, não havendo nenhuma punição.

Aguardo os apontamentos do Módulo.

Sem mais, _______ (Colega B).

Sim, dei-me o trabalho de respondê-la. Não com as palavras quentes que eu gostaria de ter usado…

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Fato 2.

Fulana de tal é membro da Academia de Letras da cidade onde morava - e que, como toda Academia de Letras, está lotada de gente que possui uma série de predicados, menos vocação literária. Solícita, participa ativamente da agitação cultural da cidade. Por ocasião do Dia Internacional da Mulher (edição 2008), recitou - e distribuiu a cada um dos presentes na repartição em que trabalhava - a seguinte poesia, supostamente de sua lavra:

mulher

Curioso, recorri mais uma vez ao Google. Estava lá: um dos mais plagiados poemas da internet brasileira (exemplos? Aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui. A verdadeira autora do poema, Fatima Aparecida Santos de Souza - codinome Perola Neggra, comentou sobre o plágio de seu poema aqui). Anexando o poema da escritora, enviei e-mail a um dos membros da Academia. Recebi resposta? Não. Camaradagem, corporativismo ou má-fé? Nunca saberei…

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Concluindo: o Google apadrinhando a patifaria

A comodidade proporcionada pelo Google aos preguiçosos de plantão tem proporcionado esses fatos regularmente. Botar o tico e o teco funcionando é entendido como falta de esperteza - já que o sabe-tudo lhe dá a obra pronta, com honras e elogios.

Essa história toda deixa a internet semelhante ao padrinho que, carinhoso com o afilhado, oferece-lhe muitas possibilidades de uma vida melhor e o fedelho opta por um caminho mais fácil, nem sempre observando minimamente o necessário respeito ao outro e as regras elementares de convivência em sociedade. O Google jamais pode ser considerado pai dos plágios, mas, com certeza, apadrinha milhares de patifes.

Alvorecer

June 21st, 2008

[larghetto stringendo, ré menor]

Nos dias de sombra
Coração contraído
Maltratado, indeciso
Luz? Jamais chega.

Nos dias de sombra
Coração acelerado
Preso a convenções
Muros intransponíveis.

[Vivace, rallentando, lá bemol maior]

Nos dias de luz
Cotidiano renovado
Graça e leveza.

Nos dias de luz
Cotidiano planejado
Segurança em ser-feliz.

Sobre a paixão

June 15th, 2008

A paixão desumaniza o homem. Irracional, subtrai do indivíduo qualquer pensamento reflexivo sobre suas ações. Alheio aos pequenos problemas do cotidiano, conduz os indivíduos a sensação de serem levados por uma correnteza forte o suficiente para não perceberem as conseqüências – muitas delas essencialmente perversas – dos impulsos mais primitivos do coração. Em sua vã ilusão, imagina as cores do dia mais fortes e os odores suaves das plantas mais presentes. A energia extraída da felicidade de um apaixonado moveria o mundo; da frustração, uma hecatombe. Daí o perigo. Encantamento por sorrisos, belos olhares e et caerva pode tanto corresponder ao renascimento da vida quanto ao principiar da tragédia.

Lost (4th season): espetacular

June 14th, 2008

Taí uma coisa que, nos últimos anos, tem sido um vício constante: os seriados americanos.

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A quarta temporada de Lost encerrou-se já algum tempo nos Estados Unidos. Embora a audiência da série caiu muito, os episódios da última temporada não foram ruins; muito pelo contrário. O encadeamento do roteiro foi eletrizante. Vários mistérios foram desfeitos, como, por exemplo, aquele monstrengo barulhento que varria a ilha como um Taz gigante em forma de fumaça.

A surpreendente morte de Charlie, no final da terceira temporada, foi um soco no estômago. Pirar o cabeção, de fato, só agora, ao mostrar quem era o indivíduo falecido e deixado em uma funerária, conforme mostrado ainda na terceira temporada, em um daqueles lances de flashforwards.

Para confundir a galera, foram feitas três cenas finais para o último episódio da temporada. As duas cenas descartadas encontram-se abaixo.

O finado verdadeiro? Pô, é o x%6@@%.

Change we can believe in!

June 13th, 2008

No site de Obama há mensagens de boas-vindas a Hillary Clinton e sua equipe, conclamando a unidade partidária (”Unite for change”). Preocupação óbvia, após a desgastante pré-campanha presidencial e a pouca vantagem de Obama sobre o candidato republicano.

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A esquerda brasileira, no geral, entusiasma-se com a possibilidade de uma gestão dos democratas lá. Considerando os últimos discursos de Obama sobre a  América Latina e a questão palestina, a distinção entre os dois partidos ianques talvez não seja assim tão radical.

O “change” de Obama não deve ser levado muito a sério.

Novo mapa do Brasil

June 9th, 2008

Não se trata da farsa da internacionalização da Amazônia em um fictício livro didático de geografia ianque. É mais engraçado que isso. Abaixo, o Brasil procurando sua saída para o Oceano. Pacífico, evidentemente.

Via Desciclopedia.

Sound of silence

June 6th, 2008

Desabafo On.

Amo o silêncio. Desses longos, reticentes. Dos sons inaudíveis germinam pensamentos criativos. Se gosto do barulho? Claro, desde que não me obrigue, nessa condição, a pensar muito. Não importa a música: em altos decibéis, Mozart se iguala a MC Créu.

Não raramente, provocadores de barulho são folgados. Imaginam que o espaço público é extensão de seus quartos ou de suas latrinas, onde podem cantar, gritar e rir até quando as cordas vocais permitem.

Chama isso de falta de educação? Não sei se as coisas são tão simples assim.

Depois de três anos atuando em formação continuada de professores, sei, mais que ninguém, como os docentes gostam do monopólio da fala. Aliás, o magistério deve congregar, juntamente com os políticos profissionais, os sujeitos mais falantes desse mundo. Claro, a fala é essencial para o trabalho do professor. Todavia, regras básicas, de educação mesmo, deveriam ser respeitadas no cotidiano. Ou o que esperar de um policial que não sabe o manejo e a hora correta de usar seu revólver?

Tente, por exemplo, estudar em um ambiente no qual três ou mais professores encontram-se presentes. Impossível. Acostumados como estão em falar para uma platéia de mais de quarenta alunos barulhentos e desatentos, professores não mais usam o recurso de dosagem da altura de voz e bom senso para reconhecer o que se passa na vizinhança. Se os interlocutores estão a um metro de distância e o ambiente da sala é destinado para, entre outras coisas, o estudo, não importa: são apenas detalhes.

Bom senso, já.

Desabafo Off.

Escolas públicas federais: centros de excelência em ensino?

June 5th, 2008

Os resultados do ENEM repercutem com muitos sorrisos e orgulho na rede federal de educação básica (CEFET’s, Colégios Militares e Colégios de Aplicação). Seria a alta qualificação dos docentes responsável pelo sucesso dos números?

Grande parte do corpo docente da rede federal é composta de mestres e doutores. Mas, convém lembrar, explicar esse fato pela formação docente é simplificar demais o problema. A própria estrutura de ingresso (especialmente nos Colégios Militares), através de vestibulinhos, dá um jeito de excluir alunos medianos e ruins. A matéria bruta que os mestres e doutores trabalham é seleta, diferente das condições encontradas pelos demais professores das redes públicas municipais e estaduais.

Mesmo nas escolas federais há consideráveis discrepâncias. Não se pode, a meu ver, comparar um CEFET com acirrada disputa de ingresso, em regiões tradicionalmente bem avaliadas no Ensino Fundametal e Médio, com outro em que a matrícula é definida por sorteio, a concorrência no processo seletivo é muito baixa ou, ainda, a clientela atendida não chega ao CEFET minimamente competente, do ponto de vista das aquisições cognitivas básicas.

Nesse sentido, a qualidade efetiva do ensino poderia ser medida se fossem computados os dados de entrada e saída dos alunos na rede, da forma como são realizados no ENADE. Daí, sim, poderíamos avaliar, comparativamente e com segurança, o processo de ensino realizado na rede federal.