À Morte

Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E como uma raiz, sereno e forte.

 

Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.

 

Dona Morte dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!

 

Vim da Moirama, sou filha de rei,
Má fada me encantou e aqui fiquei
À tua espera… quebra-me o encanto!

Florbela Espanca, poetisa portuguesa

Cansaço

Daí o cansaço te pega de tal maneira no início da semana que o suplício maior é  provocado pelo ponteiro do relógio, sempre a indicar o quão distante está a hora de adormecer e acordar em um novo-velho dia.

Leãozinho

Ruben era corajoso, valente. Gostava de exercitar sua primogenitura. Um exemplo de sua audácia – um atrevimento, até – esteve em seu envolvimento com Bila, concubina de seu pai. Nas palavras de hoje, era um homem carregado de testosterona. Seus dois irmãos imeditamente mais novos, Simeão e Levi, exercitaram a valentia com violência: comandaram o massacre a Siquém depois que Diná, uma de suas irmãs, foi assediada sexualmente por um homem da cidade.

Tanta testosterona teve um preço: a perda da primogenitura.

Jacó, em leito de morte, deu a primeira benção a Judá, o quarto filho. Dizia seu pai que ele era como um “leãozinho”. Muitos citam o leão enquanto um animal dominador para indicar a profecia de que, da tribo de Judá, se teria o rei que estaria a frente de todas as outras tribos. Mas o texto é claro: não se trata de leão, mas de leãozinho.  Não há explicação adicional sobre a expressão, mas cá penso se não é algo que combina a doçura e sensibilidade dos animais de pouca idade à ferocidade mobilizada quando necessária.

Testosterona, macheza, instinto, virilidade, só fazem sentido na natureza humana se combinado com a doçura e a sensibilidade.

É assim que se faz bons reis, bons líderes, boas pessoas. Doçura e firmeza, combinadas.

[Leitura: Genesis, 49]

 

Urbanóide

Ser recluso, optar por solidão, mudar-se pra longe, viver nas montanhas, adotar o eremitismo como filosofia de vida.

Isso é fácil.

Quero ver é se manter solitário no meio da multidão. Quero ver é criar, por décadas, um “eu-interior” solitário e incomunicável com a superfície. Quero ver é olhar para todos os rostos – mais ou menos próximos – e ver a palidez, a frieza, a incomunicabilidade tal qual o ermitão tem ao se encontrar com uma sequoia.

Estar só (voluntariamente) na multidão é para poucos.

Miséria

Nossa miséria não pode ser medida. É, de fato, incomensurável.

Achamos, na maior parte do tempo, que somos merecedores por tudo o que de bom recebemos. É uma estupidez.

Não somos merecedores de nada. Somos maus. A ira, a cobiça, a inveja… e tantos outros ‘desvios’ nos tomam.

Mas há quem, mesmo assim, se acha justificado por suas boas obras.

Não é.

Na balança, o que nós colocamos do nosso melhor ainda é pior do que esterco.

Tomar consciência, portanto, de como somos miseráveis não é um sinal de loucura. É a boa razão, uma iluminada razão, nos colocando no nosso devido lugar.

Loucura, mesmo, é depois de ter o reconhecimento de tamanha miséria escolher o afastamento d’Ele.

Um absurdo.

Um absurdo porque a razão diria que é exatamente a consciência de nossa total depravação que nos faria ainda mais dependente de Sua Graça.

Não é de fato uma loucura? Eu reconheço que sou mais miserável do que antes achava e, aí, resolvo que sou indigno de ficar na presença d’Ele. Se antes eu me achava um não-merecedor, não seria EXATAMENTE agora que minha dependência deveria estar a níveis críticos, de modo que todas as minhas ansiedades e preocupações se depositassem, unica e exclusivamente, aos pés d’Ele?

O sensato, creio, é fazer o que se espera. O fraco, ao se tornar consciente de sua fraqueza, se refugia no Castelo Forte. Afastar-se é jogar-se no abismo. É se entregar, em definitivo, à morte.

Que a misericórdia se estenda a nós: em força, em conhecimento, em sensatez. Que nossa miséria não nos atrapalhe a nos aproximar d’Ele. Porque, afinal, é Ele quem cuida de nós.

Destino

Se houvesse um manual do tipo coisas-que-um-rei-de-Israel-não-deve-fazer, certamente Acabe seria seu autor. Casou com uma mulher odiável (ou o que dizer de uma rainha que persegue seus próprios súditos?), permitiu altares de outros deuses e continuou a tradição dos reis de Israel, desde Jeroboão, a fazer o que não era a vontade de Deus. Acabe foi um legítimo vaso criado para a desonra.

Mas Acabe não era covarde.

Sua morte, nas mãos dos sírios, é uma prova de sua valentia. É, também, uma prova de que, ao plano de Deus, nada se pode opor.

Acabe desistiu de usar o aparato de proteção e a posição abrigada de um rei em frentes de batalha. Vestiu-se como um soldado qualquer. No meio de tantos soldados, lá estava o rei, de espada na mão.

A profecia a ele, entretanto, era de morte.

Os sírios não buscavam nenhum outro, a não ser Acabe. Josafá, rei de Judá, seu aliado, manteve-se como manda o figurino. Não demorou para que os sírios o achassem. Não fosse um grito, que denunciara ser ele Josafá, e não Acabe, estaria morto.

Na frente de batalha, uma flecha desavisada atingiu um dos vários soldados de Israel. A couraça o protegia, mas a flecha o atingiu entre as dobradiças da armadura. O ferimento provocou grave hemorragia. Sangrou até o fim da tarde, quando faleceu. O rei estava morto.

A morte de Acabe é um recado profético. Não conseguimos desviar do rumo daquilo que a nós foi decretado. Esquerda, direita, norte, sul, não importa. O destino será o mesmo. Não há opção. Não há escolha.

[Leitura: II Crônicas, 18]

Choque

Fui sombrio. Falei sobre morte. O tempo todo. A criançada não deve ter sacado que a morbidez estava para além do que se ouvia. No final das contas, como compreender a paixão pela morte? Não seria ele, o palhaço, o exemplo máximo de felicidade? De onde retirar tantos sorrisos se, lá dentro, o gosto acre preenche todas as saliências, todos os espaços vazios que ele mesmo supunha certa vez estar preenchido?

Não, não há explicação. O choque será sucedido pelo torpor. O incompreensível e o inacreditável estará, mais uma vez, provando como a loucura pode superar a razão humana.

Milagre

Lázaro estava em descanso. Provavelmente, se perguntado, não desejaria voltar a vida. Ele não faria a vontade de Lázaro, mesmo dele sendo amigo íntimo. Sua Vontade é soberana.

O milagre foi generoso para com suas irmãs. A angústia e a dor da perda foram resolvidas com a devolução de Lázaro ao seu convívio familiar. Lázaro, entretanto, voltara à disponibilidade para a dor. Do descanso sossegado para a vida em angústia, Lazaro não teria motivos sinceros para agradecer ao Seu Amigo. Mas Ele sabia de tudo. Sabia que o amigo morreria. Sabia que o corpo de seu amigo entraria em decomposição. E sabia também que o milagre seria ainda mais milagre, seu poder seria ainda mais poder se Lazaro viesse a vida depois de esgotada todas as esperanças.

Ele sabia das coisas.

Não há limite para seu conhecimento ou para seu poder. A Ele, toda honra.

[Leitura: João, 11]

Valente

O que vale um homem valente?

Sua braveza, sua coragem, certamente serão suficientes para vencer uma batalha.

Mas sua valentia servirá para vencer uma guerra?

Não, certamente não.

É preciso mais que isso. É preciso que, ao lado do valente, estejam mais valentes.

Tombado na guerra o único valente, seu exército torna-se presa fácil ao inimigo.

A batalha vencida pelos valentes, por sua vez, enche de ânimo seu exército.

Lutar sozinho é desanimador demais. O ânimo só estará a seu lado se outro valente estiver bramindo a espada a seu lado.

Guerras não são feitas para serem travadas sozinho.

[Leitura: Crônicas, 1o, 11]

Mornidão

A vida é curta demais para sermos indiferentes a ela. Cada minuto deve ser vivido intensamente. Ele não mais voltará. Faça-a valer a pena. Não seja morno. De que vale a pena ser mero expectador? O que ganha apenas observando os dias à sua frente? Porque acrescentar horas a sua vida e não vida a suas horas? Não seja morno!

Acrescente frieza a sua vida.

No calor escaldante, precisamos de refrigério. A água gelada nos concede alívio. Água morna não mata sede. Água morna não refresca. No calor da discussão, é necessária a intervenção rapida e eficiente da racionalidade. A razão é fria. A mornidão é sinal de indiferença. Não serve pra nada.

Acrescente calor a sua vida.

Envolva-se no calor do amor que te faz bem. Permita-se ser tomado pelo efeito terapêutico da água quente. Deixe a água quente percorrer seu corpo e despi-lo do cansaço. O calor depura. A quentura dissolve impurezas. A mornidão é sinal de indiferença. Não serve pra nada.

Não seja morno. Não se permita usufruir dos benefícios da indecisão. Escolha e seja responsável por elas. Tome decisões. Não se deixe levar ao sabor do vento. Não seja morno!

Sejamos frios quando precisamos ser frios. Sejamos ferventes quando precisamos ser ferventes. Mas jamais sejamos mornos. Em ocasião nenhuma. A vida não nos merece assim.

[Leitura: Apocalipse, 3]